LOOP

LOOP

por Alê Camargo




César saiu da sala, deixando Dimas aguardando. Depois de alguns minutos retornou. Estava agitado.
- E então? 
- A porta do laboratório está completamente travada. Estamos presos!
- Sim, sim, isso eu já sei. Mas e a janela do corredor? Conseguiu ver a janela?
- Não. Está muito escuro lá fora.
- MERDA! Merda, merda, merda!
- O q-que foi?
- Você ainda não entendeu? Estamos num loop!
- Um... loop?! Ah, não! É claro que não!
- Eu sabia que tinha visto a Máquina ligando. Algum dos imbecis dos Arquivos deve ter tentado usá-la pela rede.
- Com a gente aqui dentro?! Eles não fariam isso, é muito perigoso! 
- Mas fizeram. E estamos presos.
- Deve ter outra explicação. 
- É mesmo? Que horas são agora?
- Não sei. Umas cinco.
- E o que você almoçou?
- Como assim?
- Apenas me diga o que você almoçou.
- Sei lá, o mesmo de sempre.
- Detalhes, cacete. Me dê detalhes.
- Uma salada verde, um pouco de macarrão…
- Você está só chutando. E como você chegou aqui no laboratório pela manhã? Lembra disso, pelo menos?
- Não entendo aonde quer chegar.
- Eu também não me lembro. Do que almocei, de como cheguei aqui. De nada. Estamos presos num loop, César.
- Não pode ser!
- Podemos estar aqui falando disso há dias, semanas… anos. Não temos como saber.
- Deve ser uma pane no sistema central. Vou só ligar para a admnistração e pedir para mandarem alguém para abrir a porta. Só que… isso é estranho.
- Seu celular não funciona, não é?
- Está sem sinal. 
- Não há “sinal” por aqui. Estamos presos fora do espaço-tempo comum. 
- E o que faremos?
- Precisamos quebrar o ciclo. Impedir que eles liguem a Máquina naquela hora.
- Mas… como?
- Você não sabe como? Temos uma Máquina do Tempo bem aqui na nossa frente, oras.
- Espere aí!
- É nossa única chance. 
- Não temos permissão! Somos só técnicos! Se alguém descobrir...
- Eu entro na Máquina e volto no tempo alguns minutos. Meia hora, talvez. Conserto as coisas e pronto. Tudo muito limpo e rápido. Nenhum dos fodões vai perceber. 
- Isso é loucura, Dimas. Muito perigoso! É melhor esperar alguém perceber e vir nos tir…
- O que foi isso?
- Isso, o quê?
- O que você fez?
- Nada.
- Tive a impressão que vi as luzes da Máquina acenderem. 
- Impossível. Os sistemas dela estão desligados.
- A não ser que… ah, não.
- O que foi?
- Sabe aquela janela no corredor lá fora? A que abre para o jardim de inverno?
- O que tem?
- Vá por favor até lá e me diga o que você vê do lado de fora.
- Não estou entendendo.
- Apenas vá, está bem?
- Mas…
- Pode ir. Eu não sairei daqui.

GOTA DE SUOR

GOTA DE SUOR

por Alê Camargo



    A mulher se aproximou dele pela calçada, desviando das pessoas apressadas que entravam e saíam da estação do metrô. Ela era muito pálida e o fitava intensamente, sem piscar.
    - Sabia,- disse ela num tom conspiratório -, que a maior parte dessas pessoas não estão realmente aqui? Elas continuam em suas rotinas sem sentido, indo e vindo, chegando e saindo, correndo e parando, sempre atrasadas, usando seus malditos telefones sem parar nem por um momento. Algumas demoram meses para perceber que estão mortas.
    O rapaz sentiu uma gota gelada de suor escorrer por suas costas.
    - Como você? - perguntou ele para ela, finalmente.
    Ela sorriu.
    - Como nós.

O SOM DO MOTOR

O SOM DO MOTOR


por Alê Camargo


Vagner acordou incomodado com o barulho. Era um ruído abafado, rítmico, um pouco baixo para ser um incômodo real mas constante. Parecia um gerador, ou um tipo de turbina… um som de motor.


Teresa estava dormindo tranquila. Ele se levantou com cuidado para não acordá-la, e andou pela casa ainda na penumbra tentando localizar a origem do som. Era algum aparelho eletrônico ligado? Alguma coisa em curto-circuito? Nada encontrou. O som parecia vir de fora, da rua.

Abriu uma fresta na janela. Nenhum movimento na rua. Tudo parecia tranquilo, mas o som estava mais nítido agora.

Desceu até o térreo do sobrado. Na sala, teve certeza que o som vinha de fora, mas parecia ter diminuído um pouco.


Um pouco mais tarde, durante o café da manhã, Vagner ainda escutava o ruído.


- Você está ouvindo isso? - perguntou ele para Teresa.


- Isso o quê? - perguntou Teresa, enquanto passava manteiga no pão.


- Esse barulho esquisito.


A mulher prestou atenção com a testa franzida.


- Acho que… não.


- Um som abafado… como um motor.


Teresa ouviu mais um pouco, mais para agradá-lo do que qualquer outro motivo.


- Um motor de carro? - sugeriu ela, tentando ajudar.


- Não, não. - disse Vagner. - Não é isso.


O dia começou de fato, e Vagner se distraiu com as tarefas da casa. Alimentou o cachorro, lavou a louça, falou com alguém no telefone (era engano). Foi só perto da hora do almoço que reparou que o som ainda estava lá.


Saiu na rua e olhou ao redor. Era sábado, e tudo estava bastante calmo. Céu azul, sol brilhando. Viu seu vizinho chegando de carro e o cumprimentou. O outro respondeu, enquanto tirava as compras do porta-malas. Trocaram algumas frases sem sentido sobre o tempo, “hoje está calor, ontem choveu”, e Vagner finalmente chegou no assunto que tanto o incomodava.


- Júlio, o que será esse esse som? - disse ele. - Um ruído baixo, que parece um gerador?


O vizinho franziu a testa, e prestou atenção olhando ao redor.


- É uma coisa que está me perturbando desde cedo. - continuou Vagner, rindo um pouco nervoso.- Não deve ser nada. Talvez seja só impressão.


- Estou ouvindo uma coisa, sim. - disse por fim o vizinho.


- Está? Um tipo de motor?


- Isso. - disse Júlio. - Acho que é isso mesmo. Um motor.


- E o que você acha que é?


- Não sei, não.- disse ele, sorrindo, e voltando a tirar as compras do carro.


Naquele exato momento, parado ali olhando para o vizinho que o ignorava, Vagner entendeu: o outro não estava prestando atenção na conversa. Agradeceu e despediu-se mesmo assim.


Vagner lembrou-se que havia um prédio em construção duas ruas abaixo da deles. Era uma obra grande, cheia de caminhões e aquelas máquinas de preparar concreto. Não custava ver se o som vinha dali.


Vagner saiu andando pela rua vazia. O som estava aumentando? Não sabia dizer. Mas não estava diminuindo, e o rapaz agora conseguia reconhecer detalhes no som, que parecia pulsar. O ritmo era constante, mas o volume subia aos poucos, e depois voltava a baixar, com alguns segundos de atraso.


Quando finalmente chegou na frente da obra o som enigmático estava mais alto. Mas bastou um olhar de relance para ficar claro que o som não vinha dali - os operários deviam estar almoçando, pois os equipamentos pesados e máquinas estavam desligados, e não havia muita gente por ali.


Foi então que ele ouviu uma voz sobre o som da turbina. Um sussurro rápido, próximo ao seu ouvido esquerdo. Não conseguiu entender as palavras, mas era como se alguém estivesse muito perto dele. Ele virou rápido, por reflexo, mas não havia ninguém ali.


Vagner parou na calçada, confuso. Olhou ao redor. Teve uma impressão estranha, indefinível, de medo. Um golpe rápido, um princípio de ansiedade que gelou seu peito.


Agora o som estava mais alto e nítido. Era algo mecânico. Um equipamento engasgando, talvez, com uma camada sobreposta de ar que escapava - ou forçava para entrar.


Uma senhora baixinha vinha descendo pela calçada naquele momento. Vagner correu até ela, talvez rápido demais.


- O que é isso? - perguntou ele, agitado, com os olhos arregalados.


A senhora, obviamente assustada, agarrou a bolsa e a trouxe mais perto do corpo.


- O som! O som! - disse Vagner apontando para nenhum lugar em especial.


Ele não esperou a resposta da mulher - que de qualquer modo não viria. Correu de volta pela rua, com o coração aos pulos. O som aumentava a cada passo que ele dava, e a tarde ensolarada pareceu escurecer, fechando ao seu redor como um cobertor molhado.
Vagner caiu de joelhos, meio encostado num poste. Sentia falta de ar. Suas têmporas pulsavam, e o coração trovejava no peito.


“Estou morrendo”, pensou ele, surpreso. “Vou morrer aqui nessa calçada”.


E então, mais rápido que veio, tudo se foi.


O som sumiu. Sua ansiedade também desapareceu. Era como se nada estranho tivesse acontecido. Ele se levantou, trêmulo. Testou os pés. Apoiou a mão sobre o peito - o coração estava acalmando.


Tudo estava bem.


Quando Vagner voltou para casa horas depois, andava devagar, como se pisasse em nuvens. Teresa estava cuidando das plantas na entrada de casa e o viu chegando.


- Aonde você estava? - perguntou Teresa.- Eu já estava ficando preocupada.


Vagner finalmente ergueu os olhos para ela, com uma expressão febril.


- Ele enlouqueceria se despertasse assim. - disse, com a voz rouca.


- Como é? Quem? - disse Teresa, assustada.


O rapaz não parecia reconhecê-la. Seus olhos fitavam além de Teresa, sobre seu ombro.


- Espero que saiba mesmo. - disse ele, suspirando.


Vagner permaneceu parado no mesmo lugar por alguns momentos, seu corpo balançando levemente para frente e para trás. Por fim, se inclinou para a esposa e apertou sua bochecha carinhosamente. E disse baixinho, num tom misterioso:


- Não deve ser nada.


*****


- Por tudo o que é sagrado, como isso pode ter acontecido? - disse Tashka.


- Pode ter sido um micrometeorito, Supervisor. - disse Pilko, no tom mais profissional que pôde. - Ou só falência de material… essas geladeiras são muito velhas.


O Supervisor pousou a mão de dedos longos sobre a tampa de vidro.


- Vamos precisar de um bio-transfer? - perguntou ele.


- Isso não será necessário, senhor Supervisor. - disse Pilko, tenso. - Foi só um pequeno vazamento. O nível de oxigenação desceu um pouco, mas já está tudo normalizado.


Tashka arqueou as sobrancelhas, e apontou para a tela. - Se esses dados estão corretos, eu diria que esse viajante quase acordou.


- Ah, não, senhor. O sono dele está estável. Simulação rodando normalmente.


- Ele enlouqueceria se despertasse assim. - insistiu Tashka, carrancudo.


Aquilo irritou Pilko profundamente. Como se já não bastasse o Supervisor vir perturbá-lo no meio de uma manutenção de rotina, agora questionava sua qualificação profissional. Ele respirou fundo, e respondeu da forma mais objetiva que pôde naquelas circunstâncias.


- Não há nenhum risco dele acordar… não nessa década. Eu sei o que estou fazendo!


O Supervisor acenou com a cabeça, cansado de discutir.


- Espero que saiba mesmo. - disse ele.


Pilko começou a guardar as ferramentas. Desligou as luzes de trabalho e se afastou pelo longo corredor escuro, seus passos ecoando no piso metálico. O som dos motores era bem intenso ali.


Tashka olhou para o rosto imóvel do viajante sob a grossa tampa de vidro. Teve a impressão de ter visto um ligeiro espasmo muscular, mas sabia que era impossível. Era apenas sua mente pregando-lhe peças.

- Não deve ser nada. - disse, tentando se convencer.

O REI CAÍDO

O REI CAÍDO

por Alê Camargo



Ao nascer do sol do quinto dia a grande batalha já estava decidida. Ainda restavam uns últimos focos desorganizados de resistência mais para o interior. Mas a capital humana ardia em chamas e uma devastação irreversível se espalhava por suas ruínas. O Rio Tyronna já corria vermelho há vários dias. O céu estava escuro das cinzas, e gemidos e lamentos gelavam as ruas em escombros.

 Foi só então que as Hordas finalmente tomaram a cidade. Os demônios marcharam uivando para dentro dos portões quebrados, vindos diretamente do Grande Abismo. Cada qual era único em sua estranheza, mas todos eram igualmente terríveis. Tinham dois, três, muitos braços ou nenhum. Alguns tinham chifres, outros eram recobertos por escamas metálicas ou tinham olhos chamejantes ou línguas bifurcadas - eram uma multidão de pesadelos dos quais não se podia acordar. Suas figuras hediondas só eram superadas, talvez, por suas almas distorcidas. 

 Claro que os demônios foram ferozes com todos os humanos ainda vivos que encontraram pelo caminho. Mas foram especialmente criativos com os intervencionistas - um grupo de maltrapilhos chorosos que haviam passado os últimos meses da guerra defendendo a ideia de que os humanos deviam simplesmente entregar sua nação para os invasores e pedir clemência e justiça. Não tiveram nada da primeira mas tiveram mais que o suficiente da segunda, e os demônios usaram seus corpos em pedaços para escrever uma mensagem muito clara no alto das muralhas. 

 E a mensagem era: TUDO ACABOU.

 Pela metade da manhã trombetas ecoaram pela capital avisando que o Arquiduque dos demônios, Menan-toth, havia chegado. Possuía longas asas de couro negro, e seu corpo era alto, quitinoso e escuro. Trazia na cabeça inúmeros chifres de vários tamanhos, esculpidos e talhados e serrados para formar uma estrutura que lembrava uma coroa. Ele pousou cercado por sua tropa pessoal, e marchou resoluto até o Palácio.

 O Palácio de Prata havia sido cruelmente atacado e saqueado durante a noite. Seus salões e passagens e corredores e jardins estavam destruídos além do reconhecimento, como se tivessem sido triturados por um furacão. Corpos humanos e demoníacos atulhavam o lugar.

 Nenhum dos heróis da Guarda de Elite palaciana sobrevivera ao massacre. O mais valente deles, o lendário Zamuth dos Portos, jazia perto da entrada do Palácio. E numa ala lateral perto do hall de entrada. E um pouco no corredor leste. E, tristemente, também debaixo de um dos passadiços.

 Mas o Arquiduque e seus demônios não se detiveram diante de nenhum daqueles ou de outros tantos horrores, pois tinham um destino muito claro: a Sala do Trono. Ali os vitrais quebrados deixavam passar uma luz mortiça que iluminava pilhas de destroços fumegantes, e o cheiro de carne queimada empesteava o ar.

 Um grupo de demônios menores tinham formado um círculo num dos lados da grande sala, e agitavam com gritos nervosos suas lanças e espadas na direção de algo caído no chão. O Arquiduque e seu séquito se aproximaram, e os demônios prontamente deram passagem, revelando o centro de suas atenções.

 Deitado ali numa poça de sangue estava Vanther III, o Rei dos Homens, ainda uma figura imponente apesar de tudo o que sofrera. Sua armadura reluzente estava amassada e perfurada em vários lugares, e recoberta do sangue negro dos vários demônios que abatera. Respirava profundamente, quase como se dormisse. Uma queimadura arrepiante levara um dos lados de seu rosto, e sua barba e cabeleira brancas estavam grudentas de coágulos e sujeira.

 O Arquiduque se aproximou e avaliou a figura caída com um olhar satisfeito. O braço direito do humano estava numa posição peculiar, quebrado em vários pontos. O Rei Vanther também sangrava no tronco e abdômen, e cada uma das feridas era muto provavelmente fatal. E ainda assim o humano continuava vivo, o que abria para o Arquiduque toda uma série de possibilidades interessantes.

 Foi nesse momento que o Rei caído moveu bruscamente seu braço ainda inteiro com um espasmo e o agitou no ar por algum tempo, . O Arquiduque voltou-se na direção para onde o braço do Rei se esticava e compreendeu: ele tentava inutilmente alcançar sua espada, caída meio metro além de qualquer possibilidade disso acontecer. 

 Mesmo diante da futilidade daquele gesto, o Arquiduque circulou sem pressa o Rei, aproximou-se da espada e a chutou para longe, com um tilintar metálico. 

 Vanther ficou imóvel por algum tempo vendo a espada distante, com sua mão parada no ar. Depois, ergueu o rosto ferido e observou o Arquiduque de forma intensa, de cima a baixo. E então seu rosto se iluminou, e de repente a dor se foi, e tudo se foi, e nada mais importava além daquilo, e o Mundo parou sem fôlego por um instante apenas observando, e o Rei dos Homens riu alto, riu forte, riu um riso bom, e seu riso ecoou pela Sala do Trono.

 No silêncio que se seguiu os demônios menores se entreolharam surpresos. E mesmo inquieto diante daquela atitude tão fora de propósito o Arquiduque nada fez, exceto se aprumar um pouco mais, e erguer uma sobrancelha escamosa com desdém.

- Do que está rindo, humano? - disse o Arquiduque.

O Rei caído olhou nos olhos flamejantes de seu inimigo. E disse com a voz firme, para que todos ouvissem:

- Sua cabeça ficará ótima decorando minha parede.

O PALHAÇO E A CIDADE SITIADA

Às vezes, histórias me vêm em sonhos. Como essa. Acordei há algum tempo atrás - tomando cuidado para não acordar as meninas - transcrevi o melhor que pude, e aqui está. (09/04/2016)

O PALHAÇO E A CIDADE SITIADA

A cidade sitiada vinha sofrendo ataque após ataque dos seus terríveis inimigos, e já estava no fim de suas forças.

Todos seus heróis já haviam sido dizimados. Todos os homens e mulheres com idade suficiente já haviam se oferecido para defender a cidade, e todos sem exceção já haviam caído.

Pois quando aquela madrugada derradeira se aproximava, e os tambores de guerra tocaram mais uma vez lá fora, e o velho prefeito fez um último apelo desesperado aos habitantes que restavam amontoados e chorosos próximos à praça central, foi o Palhaço o único que se ofereceu, e deu um passo à frente.

Todos observaram chocados quando ele se aproximou da "pilha de armas" - que nada mais era que tudo o que a cidade ainda possuía e que parecia remotamente com objetos perigosos, mas que consistia num triste amontoado de utensílios de arar o campo, brinquedos velhos, instrumentos musicais quebrados e coisas similares - se abaixou, e começou a escolher com lágrimas nos olhos.

Acabou optando por uma espada de madeira pintada, descascando, e que tinha o cabo mais ou menos preso à lâmina sem corte com um triste pedaço de corda colorida. Ele sentiu o peso do adereço nas mãos ossudas, tomou fôlego, endireitou as costas, e sob o olhar atento da multidão silenciosa seguiu na direção do portão da cidade.

O velho Palhaço já vira e ouvira muita coisa, e já havia passado por todos os tipos de situações perigosas e difíceis em sua longa vida. Mas nada o preparava para o pavor que sentiu quando, lá fora, ergueram-se os gritos raivosos dos inimigos. Eram muitos, e estavam num frenesi de raiva, como tubarões sentindo o gosto das primeiras gotas de sangue de sua vítima enfraquecida, e estivessem se aprontando para o ataque final.

E era isso mesmo.

Mas apesar de seu coração aos pulos e sua garganta seca o Palhaço não se afastou do portão. Ele segurou sua espadinha ridícula com ambas as mãos e respirou fundo e aguardou, enquanto a fúria dos inimigos crescia cada vez mais, e os urros de raiva e as trombetas faziam toda a muralha que cercava a cidade tremer.

E foi então que ouviu a música, e se virou para onde aquele absurdo som fora de lugar e hora estava vindo, e os viu.

Eram um grupo patético. Um deles era o Padeiro, e vinha brandindo uma pá e segurando um caldeirão amassado como se fosse um escudo. Outra era a Professora de Música e trazia na mãos um pesado alaúde, que ela tocava muito bem dadas as circunstâncias. Outro era o Jardineiro armado com um ancinho e uma gaitinha de boca, seguido de perto pela Velha Bailarina, que dançava com uma graça inesperada e levava duas facas de cozinha nas mãos, e as batia uma contra a outra num ritmo intenso.

Alguns poucos outros foram se juntando ao grupo, e quando chegaram perto do Palhaço sua música estava alta, e eles estavam eufóricos e o abraçaram e bateram palmas. E enquanto o sol nascia eles cantaram músicas de outras épocas melhores e contaram histórias e piadas uns para os outros como se aquele fosse um dia de festa, e bateram amistosamente nas costas uns dos outros e choraram um pouco, mas riram ainda mais.

E quando a manhã chegou e o inevitável aconteceu, cada um deles - liderados pelo Palhaço e sua espada de madeira - fez tudo o que podia, e brilhou, e se tornou Lenda.